Medicina
O combate no útero
Médicos brasileiros descobrem um
novo tratamento para a endometriose,
a principal causa da infertilidade feminina
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Giuliana Bergamo
Apesar de descrita há mais de dois séculos, a endometriose é uma doença feminina típica dos hábitos de vida modernos. Nos últimos cinqüenta anos, a mulher passou a menstruar mais cedo e a entrar na menopausa mais tarde. Além disso, como a carreira profissional se tornou prioridade, ela adia a maternidade, tem menos filhos e, quando os tem, muitas vezes não os amamenta. Por causa de todos esses fatores, as mulheres de hoje menstruam mais. Para se ter uma idéia, no tempo de nossas avós, elas passavam por cinqüenta menstruações ao longo da vida. Hoje, esse número saltou para 400. Do ponto de vista orgânico, o resultado é uma exposição mais longa à ação do hormônio estrógeno, o grande detonador da endometriose. Principal causa de infertilidade feminina, a doença atinge 5 milhões de brasileiras. Até agora, a única arma contra o mal, além da cirurgia, era o bombardeio químico contra a ação do estrógeno, o que acarreta graves efeitos colaterais. Um estudo de médicos brasileiros, publicado recentemente na revista Human Reproduction, da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, traz boas notícias no campo do controle da endometriose. Eles comprovaram que o uso do dispositivo intra-uterino (DIU) de progesterona é tão eficaz no controle da doença quanto os métodos tradicionais – sem, no entanto, causar fortes reações adversas.
A endometriose ainda é um enigma para a medicina. Não se desvendou, por exemplo, por que algumas mulheres são acometidas pelo problema e outras não. O mal se caracteriza pela migração de fragmentos de endométrio, o tecido que reveste a parede interna do útero, para outros órgãos, como as trompas, os ovários, o intestino, a bexiga e o fígado. Estimulado mensalmente pelo estrógeno produzido nos ovários, o endométrio ganha uma camada mais grossa com o objetivo de preparar o útero para abrigar um embrião. Normalmente, quando não ocorre a fecundação, essa camada extra se desfaz e é eliminada pela menstruação. Nas mulheres com endometriose, mesmo fora do útero, os fragmentos de endométrio continuam respondendo aos estímulos hormonais durante o período menstrual. Num esforço para eliminar esses focos de tecido, o sistema imunológico causa processos inflamatórios. O resultado são nódulos, dores fortes, sangramento e até a destruição de algumas porções dos órgãos afetados, o que não raro leva à infertilidade. Isso porque as trompas podem se ligar aos ovários ou ao intestino, por exemplo, impedindo tanto a liberação quanto a passagem dos óvulos.
O tratamento medicamentoso da endometriose consiste em neutralizar a ação do hormônio estrógeno (veja quadro). A eficácia do DIU de progesterona é comparável à de um grupo de remédios conhecidos como análogos de GnRH. Usados há cerca de dez anos, esses medicamentos são administrados uma vez por mês, por meio de injeções. Eles atuam no cérebro, onde interrompem a produção das substâncias responsáveis pelo controle da quantidade de estrógeno nos ovários. "Os análogos de GnRH podem ser usados por apenas nove meses", diz o ginecologista Rui Ferriani, professor da Universidade de São Paulo e um dos autores da pesquisa publicada na Human Reproduction. "Se o tratamento ultrapassar esse período, os riscos se tornarão maiores do que os benefícios." O consumo excessivo desses medicamentos pode levar a uma menopausa química. A paciente fica sujeita a ondas de calor, osteoporose, ressecamento vaginal, falta de libido e esterilidade. Com o DIU de progesterona, esses riscos praticamente desaparecem. A progesterona é outro hormônio sexual feminino e tem o poder de inibir a ação do estrógeno. Sob a forma de comprimidos e injeções, ela é usada no tratamento da endometriose há cerca de cinco anos. Mas, como com o DIU a liberação do hormônio ocorre diretamente no útero, a dose do medicamento é bem menor, o que reduz significativamente os efeitos colaterais. Usado há três anos como método contraceptivo, o DIU de progesterona é uma evolução dos dispositivos de cobre, empregados em larga escala a partir da década de 70.
Outra opção de tratamento são os anticoncepcionais combinados – que misturam progesterona e estrógeno. Eles regularizam ou interrompem os ciclos menstruais, mas não são tão potentes para impedir a migração de pedaços do endométrio. "Esses remédios costumam ser utilizados em casos mais leves da doença ou em pacientes muito jovens", diz o ginecologista César Eduardo Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira do Climatério. Para os quadros mais graves, a única solução é a cirurgia para a remoção do tecido que cresceu fora do útero. Como o diagnóstico da endometriose tende a ser feito tardiamente, a operação é mais comum do que deveria. No Brasil, onde apenas 20% das vítimas sabem que sofrem do problema, a descoberta é feita geralmente oito anos depois do início da doença. Quanto mais tarde o diagnóstico, mais difícil é o tratamento e maiores os riscos de seqüelas.
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